top of page

O "Cangaço do Bem": A saga da Operação Martelo Bigorna e a essência da Polícia Raiz em 1978

  • há 2 dias
  • 2 min de leitura

Sem helicópteros, blindados ou comunicação, sete policiais abnegados montaram em mulas e burros para combater o tráfico de drogas. O relato histórico do veterano Onézimo mostra como era fazer segurança pública "na raça".

Em tempos onde a tecnologia, viaturas modernas, drones e helicópteros vistosos ditam o ritmo das operações policiais, o relato do veterano Dr. Onézimo nos transporta para uma época em que o combate ao crime era feito com suor, sacrifício e quase nenhum recurso. Foi assim que nasceu a "Operação Martelo Bigorna", carinhosamente apelidada por seus integrantes de "Cangaço do Bem", no longínquo ano de 1978.

A missão inicial era audaciosa: erradicar plantações de maconha no estado do Maranhão, varrendo as regiões de Açailândia, Barra do Corda, Santa Inês e Santa Luzia. Para cumprir o objetivo, um esquadrão de apenas sete policiais foi formado. Sem nenhum apoio logístico e totalmente incomunicáveis com Brasília, a primeira providência da equipe foi requisitar o único meio de transporte capaz de desbravar o terreno hostil: cavalos, burros e mulas, que foram escolhidos a dedo.

Um detalhe curioso e preocupante marcava o grupo: a presença de duas policiais femininas que tinham um perfil bastante urbano. Descritas na época como "patricinhas", elas sequer haviam visto um cavalo de perto até aquele momento, mas tiveram que se adaptar à dura realidade da missão.

A peregrinação pelo interior maranhense durou mais de dois meses e foi permeada por riscos extremos. Naquela região, os traficantes cooptavam e utilizavam os índios Guajajaras como agricultores das plantações ilícitas. Sem o mínimo suporte operacional, a equipe dependia da boa vontade e da solidariedade da população local para conseguir o que comer.

Apesar de todas as adversidades, a operação no Maranhão foi um sucesso retumbante. As provas históricas desse triunfo — como prensas artesanais e materiais rústicos de armazenamento e ocultação de drogas apreendidos na época — estão preservadas e podem ser vistas até hoje no Museu da Academia Nacional de Polícia (ANP).

A inusitada passagem por Mato Grosso e o "Delegado de Havaianas"

Neste mesmo projeto, a Operação Martelo Bigorna estendeu seus braços até a cidade de Bela Vista, no Mato Grosso, vizinha a Cáceres. Lá, a equipe vivenciou um episódio que hoje beira o roteiro de cinema.

Ao ocuparem a delegacia local para usar como base, solicitaram a presença da autoridade da cidade. O "Delegado" se apresentou vestindo bermuda e sandálias havaianas — um verdadeiro "calça curta". Amistosamente, ao ser questionado sobre os problemas relacionados ao tráfico de drogas na região, o homem tranquilizou a equipe afirmando que a situação estava "controlada".

Para ilustrar o controle, o delegado relatou que, no dia anterior, um barco havia atracado no porto sob suspeita. Ele mesmo foi averiguar e constatou que "não era nada grave". Tratavam-se apenas de 100 tambores de éter e acetona — produtos químicos amplamente conhecidos como precursores para o refino de cocaína —, mas que, segundo ele, seriam destinados aos "hospitais da região".

A equipe do "Cangaço do Bem" não engoliu a história. Rapidamente, levantaram os dados e partiram no encalço da carga, conseguindo abordar o barco quando este já estava quase ingressando em território colombiano.

 
 
bottom of page